quarta-feira, 24 de março de 2010

O Músico


Focalizei aquela imagem com atenção, confiando à minha memória cada detalhe. Seus braços a envolviam, ele dedilhava com um ritmo cuidadoso, concentrado mas ao mesmo tempo despreocupado, os movimentos já eram uma habilidade adquirida.
Os lábios moviam-se com lentidão, a melodia lhe escapava pelas cordas vocais, o som fazia com que os cabelos em minha nuca se arrepiassem.
As expressões em seu rosto alteravam-se com frequencia: Olhos fechavam-se, abriam-se, concentração, sorrisos, ansiedade. Eu queria que ele terminasse logo para que eu pudesse saltar em seus braços e, ao mesmo tempo, não queria parar de olhá-lo executando-a com tanta perfeição. Eu podevia assisti-lo tocar para sempre: Aquela canção.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A Oitava Cor


Ele dividiu o céu depois da tempestade em um arco no fim da estrada. Era como uma placa de boas-vindas. Uma promessa de calor e roupas secas assim que eu fizesse a travessia.
Mas meus pés estavam presos ao chão, meus olhos incrédulos recusavam-se a perder um segundo que fosse daquilo.
Eu queria poder registrá-la de qualquer forma que fosse, mas não havia como. Nem mesmo a Faber Castel a capturara até então. Aquela oitava cor não era azul, ou rosa, ou verde. Nenhuma cor para a qual eu tivesse nome. Não era tampouco uma mistura delas. Era como uma fascinante quarta cor primária.
Talvez o primeiro homem a pisar na lua entenderia a emoção daquela descoberta. Não era apenas mais uma cor para a cartela, era uma novidade que duplicava minha capacidade de percepão. A percepção de uma vida sendo inacreditavelmente expandida naquele breve segundo em que meus olhos capturaram aquela nova cor perfeita.
A partir daquele momento algumas de minhas convicções mudaram. O arco-íris tinha oito cores. Eu tinha você.

domingo, 21 de março de 2010

Pássaro Negro

Estas asas quebradas estão superando as dores, as dificuldades, elas estão reagindo, me puxando, obrigando-me a decolar. Estes olhos cansados estão aprendendo a ver, capturar as imagens, transmiti-las, permitindo uma interpretação viva e diferente. Eles tentaram enchergar no escuro, depois no clarão, depois aprenderam que era tudo uma questão de equilíbrio, luz e sombra trabalhando juntos. Os olhos ensinaram todo o resto. Tudo está equilibrado, tudo está voltando para seu lugar de origem. Tudo o que de mim fora roubado está, não sendo recurepado, mas recriado de maneira forte, indestrutível, impenetrável. A vitalidade não é mais perecível, me sinto capaz de seguir segura, sentir os cheiros, os sabores, o vento, desfrutar verdadeiramente de cada pedaço da minha vida sem medo de tê-la estilhaçada na manhã seguinte. As pessoas esbarram e machucam umas as outras querendo deixar sua marca sem perceber que o mínimo toque deixa impressões digitais nessas vidas, mínimas, mas significativas. Lembranças boas, ainda que só lembranças. E para todo aquele que vier correndo desejando colidir comigo, me quebrar para que eu tenha que me colar e conviver com as rachaduras, terá que trabalhar seu próprio equilibro, os olhos, as asas, todo o meu corpo está pronto para desviar. O pássaro negro aprendeu a voar.